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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

o mundo ronca


entre o que fala
e cala
a cara
abre-se
dentro da
madrugada
desperta
aperta o nó
e segue
alerta
contra o som
do que não veio
o silêncio
grita entre
a janela e a porta
e no quintal dos fundos
o mundo ronca
sobre tudo
aquilo
que não tenho

arturgomes

terça-feira, 1 de novembro de 2011

VeraCidade





veraCidade

porque trancar as portas 
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?
um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:
João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada  
na carne da rua aurora


Jura Secreta 18

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos

e as rendas íntimas que vestias
sobre os teus pêlos ficção
todos os laços dos tecidos
e aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o baton da tua boca
e o sabor da tua língua
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes
para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado

se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa

arturgomes

terça-feira, 20 de setembro de 2011

paulo ciranda no velho armazem


Paulo Ciranda
Neste sábado, 24 de setembro – 21:00hs
Com participação do percussionista Marcos Niedo
Local: Velho Armazém
Praia de São Francisco, 6 – Niterói-RJ

poema de Artur Gomes musicado e cantado por Paulo Ciranda

a lavra da palavra quero
quando for pluma mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
onde a lavra explora
se é saudade dói mas não demora
e sendo fauna linda como a flora
lua luanda vem não vá embora
se for poema fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

arturgomes

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O delírio é a lira do poeta se o poeta não delira sua lira não profeta



 apocalipse

o fim rimará com o início
e do pó
por amor ou por vício
a vida recomeçará

Poucos são os poetas que podem se encaixar no que acredito como ofício D. E Rodrigo Mebs é um deles, e o poema acima é profecia de uma lira que delira como lira de todo grande poeta. Nos conhecemos em Bento Gonçalves em outubro de 2008, no congresso Brasileirode Poesia e aos poucos comecei a captar sua poesia como fruta farta num pomar de carne e osso.

Em 2009 lá mesmo em Bento Gonçalves vieram as convicções que estava diante de um poeta nato. Estava eu bebendo vinho no Bar Dois Coqueiros, quando vi o Rodrigo passar com um cone que havia seqüestrado do Hotel Vino Cap, onde estávamos hospedados correndo em direção ao chafariz que fica em gente o prédio da Prefeitura.

Reunidos frente ao chafariz já estavam Jiddu Saldanha, Marko Andrade, May Paquetti e Rogério Santos, e entre poemas e delírios estava ali em Bento Gonçalves naquela primavera de 2009 lançado o manifesto Poesia no Cone, e o ditado popular lembra que de médico poeta e louco todos nós temos um pouco, mas para Rodrigo Mebs o poeta tem bem mais.

todo cuidado é pouco
cuidado nunca é demais

de médico e louco
o poeta tem bem mais

Se durante o tempo que durou a manifestação já dava para se ter uma nítida certeza sobre as lâminas poéticas despejadas a pleno pulmões pelo poeta nos tímpanos dos gaúchos que por ali passavam na hora do almoço,  no sábado quando nos preparávamos para arrumar as malas de volta, cada um de nós para a sua cidade, eis que o Rodrigo me surpreende com o convite para seguir com ele e Adília, para Floripa.

Não pensei duas vezes, tirei minha bagagem do ônibus que  nos conduziria até o aeroporto em Porto Alegre, e voltei ao Bar Dois Coqueiros onde ele e Adília aguardavam a minha resposta. Bebemos mais algumas cervejas e algumas horas depois decolamos do Rio Grande com destino a Santa Catarina. Durante o trajeto, Rodrigo e Adília trocavam o volante constantemente e Isabela dormia o sono dos anjos, e eu cuidava do carregamento de cervejas que abastecíamos em cada bar que encontrávamos pela estrada.

passado a limpo

cada

passo
cala um instante
cada vez mais
distante

cada

esboço
fala
mais que a obra
definida

cada salto
abolindo o poço
cada sonho
re(escrevendo)
a vida

E a viagem de 27 horas entre Bento e Gonçalves e Floripa, foi para mim como um passado a limpo, esboço mais que obra definida, estava ali a estrada, a escrita que viria povoar o pensamento durante a temporada inesperada pelas praias catarinenses. Rodrigo como a sua poesia, é carregado de faíscas da surpresa, relâmpagos do inesperado, suas palavras brotam em todas as direções, setas, signos, sílabas cada quais com os seus muitos significados.

horizonte em chamas

fim de tarde                     magnífico
o horizonte arde
o sol se apaga no pacífico


Em Florianópolis foram 7 dias e noites reVirando os versos, os bares, a ilha, as praias, as ruas e praças além de mais uma vez, a visita do inesperado, do outro lado da Ilha da Conceição, onde passamos uma noite sob um manto sagrado de  estrelas e o barulho da água batendo na porta da casa que nos hospedou. Aquela noite do acaso ficou  cravada na pele da memória, como a poesia que Rodrigo falava para os grilos que cantavam até a luz do sol entrar pela fresta das janelas.


Artur Gomes