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quinta-feira, 26 de julho de 2012

terra



entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

amada
de muitos sonhos e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói
é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos
por fidelidade

ó terra incestuosa
de prazer & gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro a fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

arturgomes

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

conexões urbanas


Neste sábado mais uma rodada do projeto conexões urbanas no ciep Clóvis Tavares das 14 as 17h com oficinas de gravite, skate, basquete de rua e dança de rua, com Jhony Nunes, Luciano Paes, Jorginho e Tim Carvalho. O Conexões é um Projeto do Sesc Rio executado aqui através do Sesc Campos, com coordenação de Helô Landin e produção de Nelsinho Martins (Meméia).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Delírio é a Lira do Poeta



 Desde a primeira vez que pisaram juntos o palco, em 2006 para homenagear Mário Quintana, que Artur Gomes e May Pasqueti vem afinando a química que os envolve num diálogo refinado que vai do delírio do lírico ao delicado do Erótico. Eles já foram atração na Fenavinho, em 2007, com Celebração do amor em Estado de Vinho e Uva, e no Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves.

Em Bento Gonçalves voltaram a estar juntos em, 2009  e 2010, bem como no Parque das Ruínas em Santa Teresa – Rio de Janeiro no evento Pop Rock Poesia, onde foi filmado o vídeo abaixo. Este ano com um repertório que vai da poesia de Artur Gomes a Sérgio Sampaio, passando por Torquato Neto, Paulo Leminski, Adélia Prado e Affonso Romano de Sant´anna eles apresentam o espetáculo poético O Delírio é A Lira do Poeta se o Poeta Não Delira sua Lira não Profeta.

Delírio 1

de Dante a Chico Buarque 
todos os poetas 
já cantaram suas musas 

Beatriz são muitas 
Beatriz são quantas 
Beatriz são todas 
Beatriz são tantas 

algumas delas na certa 
também já foram cantadas 
por este poeta insano e torto 
pra lhes trazer o desconforto 
do amor quando bandido 

Beatriz são nomes 
mas este de quem vos falo 
não revelo o sobrenome 

está no filme sagrado 
na pele do acetato 
na memória do retrato 
Beatriz no último ato 
da Divina Comédia Humana 
quando deita em minha cama 
e come do fruto proibido 

Delírio 2

te procurei na Ipiranga 
não te encontrei na Tiradentes 
nas tuas tralhas tuas trilhas 
nos trilhos tortos do Braz 
fotografei os destroços 
na íris do satanás 

a cara triste da Mooca 
a vaca morta no trem 
beleza no caos: urbana 
beleza é isso também 

meu bem ainda mora distante 
deste bordel carnavalho 
a droga a erva o bagulho 
Tietê um tonto espantalho 

Delírio 3

nossas palavras escorrem
pelo escorrer dos anos
estradas virtuais fossem algaravias
nosso desejo que não se concreta

e
eu tenho a fome entre os dedos
a sede entre os dentes
e a língua sobre a escrita
que ainda não fizemos

e o que brota desse amor latente
se o desejo é tua boca
no lençol dos dias?

Delírio 4

não sou iluminista nem pretender 
eu quero o cravo e a rosa 
cumer o verso e a prosa 
devorar a lírica a métrica 
a carne da musa 
seja branca negra amarela 
vermelha verde ou cafuza 

eu sou do mato 
curupira carrapato 
sou da febre sou dos ossos 
sou da Lira do Delírio 
São Virgílio é o meu sócio 

Pernambuco Amaralina 
vida breve ou sempre vida/severina 
sendo mulher ou só menina 
que sendo santa prostituta 
ou cafetina devorar é minha sina 
e profanar é o meu negócio 

Delírio 5

- essa estrada que vai dar
no mar dos teus mistérios
ou
essa estrada que vai dar
no mar dos teus silêncios
ou
apenas o caminho para o mar
na coluna vertebral
dos teus suplícios
ou
o poema puro ofício
de te oferecer amor, meu vício
e te querer estrada. sim

Federico Budelaire – viagens insanas


terça-feira, 30 de agosto de 2011

O delírio é a lira do poeta se o poeta não delira sua lira não profeta



 apocalipse

o fim rimará com o início
e do pó
por amor ou por vício
a vida recomeçará

Poucos são os poetas que podem se encaixar no que acredito como ofício D. E Rodrigo Mebs é um deles, e o poema acima é profecia de uma lira que delira como lira de todo grande poeta. Nos conhecemos em Bento Gonçalves em outubro de 2008, no congresso Brasileirode Poesia e aos poucos comecei a captar sua poesia como fruta farta num pomar de carne e osso.

Em 2009 lá mesmo em Bento Gonçalves vieram as convicções que estava diante de um poeta nato. Estava eu bebendo vinho no Bar Dois Coqueiros, quando vi o Rodrigo passar com um cone que havia seqüestrado do Hotel Vino Cap, onde estávamos hospedados correndo em direção ao chafariz que fica em gente o prédio da Prefeitura.

Reunidos frente ao chafariz já estavam Jiddu Saldanha, Marko Andrade, May Paquetti e Rogério Santos, e entre poemas e delírios estava ali em Bento Gonçalves naquela primavera de 2009 lançado o manifesto Poesia no Cone, e o ditado popular lembra que de médico poeta e louco todos nós temos um pouco, mas para Rodrigo Mebs o poeta tem bem mais.

todo cuidado é pouco
cuidado nunca é demais

de médico e louco
o poeta tem bem mais

Se durante o tempo que durou a manifestação já dava para se ter uma nítida certeza sobre as lâminas poéticas despejadas a pleno pulmões pelo poeta nos tímpanos dos gaúchos que por ali passavam na hora do almoço,  no sábado quando nos preparávamos para arrumar as malas de volta, cada um de nós para a sua cidade, eis que o Rodrigo me surpreende com o convite para seguir com ele e Adília, para Floripa.

Não pensei duas vezes, tirei minha bagagem do ônibus que  nos conduziria até o aeroporto em Porto Alegre, e voltei ao Bar Dois Coqueiros onde ele e Adília aguardavam a minha resposta. Bebemos mais algumas cervejas e algumas horas depois decolamos do Rio Grande com destino a Santa Catarina. Durante o trajeto, Rodrigo e Adília trocavam o volante constantemente e Isabela dormia o sono dos anjos, e eu cuidava do carregamento de cervejas que abastecíamos em cada bar que encontrávamos pela estrada.

passado a limpo

cada

passo
cala um instante
cada vez mais
distante

cada

esboço
fala
mais que a obra
definida

cada salto
abolindo o poço
cada sonho
re(escrevendo)
a vida

E a viagem de 27 horas entre Bento e Gonçalves e Floripa, foi para mim como um passado a limpo, esboço mais que obra definida, estava ali a estrada, a escrita que viria povoar o pensamento durante a temporada inesperada pelas praias catarinenses. Rodrigo como a sua poesia, é carregado de faíscas da surpresa, relâmpagos do inesperado, suas palavras brotam em todas as direções, setas, signos, sílabas cada quais com os seus muitos significados.

horizonte em chamas

fim de tarde                     magnífico
o horizonte arde
o sol se apaga no pacífico


Em Florianópolis foram 7 dias e noites reVirando os versos, os bares, a ilha, as praias, as ruas e praças além de mais uma vez, a visita do inesperado, do outro lado da Ilha da Conceição, onde passamos uma noite sob um manto sagrado de  estrelas e o barulho da água batendo na porta da casa que nos hospedou. Aquela noite do acaso ficou  cravada na pele da memória, como a poesia que Rodrigo falava para os grilos que cantavam até a luz do sol entrar pela fresta das janelas.


Artur Gomes



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CIDADE NA VIAGEM DO OLHAR

por  Almandrade         

As cidades são tristes quando uma curiosidade, uma presença, ou um lugar não aquece a solidão de quem vive a abstração da vida cotidiana. Nada tem sentido. A falta sempre remete a uma espécie de deserto que desorienta o viajante solitário de seu próprio espaço. – Será que as cidades deveriam ser habitadas por imagens que desejamos e por imagens poéticas? “Mas o desejo, a poesia, o riso fazem necessariamente a vida deslizar no sentido contrário, indo do conhecido ao desconhecido”. (Bataille) – Enfrentar o desconhecido é uma tarefa difícil para o homem, principalmente quando ele vive em cidades hostis ao mundo do conhecimento.

A publicidade faz a imagem da cidade, como se a natureza fosse uma imitação de uma outra natureza. A arquitetura não é mais arquitetura, é imagem de out-door. A festa faz o paraíso urbano e uma música medíocre anuncia o Carnaval, esta intervenção autoritária que desapropria a vida da cidade, para aqueles que não têm o direito de opinar contra a festa.

A cidade é a multidão que troca de imagem segundo a moda. Mas tem a imagem que permanece na memória, como objeto da paixão para o apaixonado. Pensei em Walter Benjamin e o Diário de Moscou: o olhar apaixonado de um filósofo sobre uma cidade: “Naquela manhã sentia-me com uma energia e por isso consegui falar de maneira sucinta e calma sobre minha permanência em Moscou e sobre suas perspectivas imensamente reduzidas”. Uma relação de paixão compartilhada com o conhecimento das imagens percebidas de uma cidade.

Da janela, contemplei a rua como um voyeur de cidade. O trânsito, a publicidade, a multidão, o centro histórico. Os monumentos e a arquitetura eram objetos para as câmeras fotográficas de turistas, como cenários sem data. Sem a imaginação o passado é a imagem engraçada, um efeito especial do cotidiano, onde tudo é repetitivo. A história, neste caso, não passa de uma mercadoria para um olhar carente de um lazer cultural. “A era faustuosa da imagem e dos astros e das estrelas está reduzida a alguns efeitos de ciclone e terremotos artificiais, de falsas arquiteturas e de truncagens infantis com que as multidões fingem deixar-se empolgar para não sofrer uma decepção amarga demais” (Baudrillard).

Por outro lado, a singularidade de um espaço, de um monumento ou de uma arquitetura fascina o viajante. É como as imagens poéticas que provocam o desejo de olhar e de viver um estado de deslumbramento. As imagens não são totalmente transparentes que se revelam a qualquer olhar sem reflexão: elas provocam a imaginação e exigem um olhar atento, com um repertório de referências. Isto é, uma sensibilidade capaz de perceber nas imagens suas histórias e suas verdades, mesmo que seja uma sensibilidade marcada pela paixão de uma imagem.

Almandrade

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia