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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

“K” e a dor sem remédio de uma ausência sem fim



‘K’, o romance-testemunho de Bernardo Kucinski, é uma narrativa de vertigem, escrita de forma pungente e avassaladora. Mais que um grito de dor e revolta, mais que um uivo inconformado, é um lento, sossegado, estonteante lamento. O livro fala de uma falta, fala da carência dessa vida ceifada, seqüestrada, sumida. E é essa falta que se estende ao leitor, ao passado, à memória. Um lamento perene, porque não há nem haverá final para esse vazio. O artigo é de Eric Nepomuceno.

A produção literária brasileira – tanto a de ficção como a testemunhal – sobre os anos de breu da ditadura militar é, na verdade, escassa. Se comparada à produção de países vizinhos, como a Argentina, o Chile e o Uruguai, torna-se mais escassa ainda, principalmente se for levado em conta que, apesar da barbárie ter sido maior, nesses três países os regimes militares tiveram duração menor. É como se os escritores brasileiros não encontrem matéria prima nesse passado tão recente e escuro. 

Há livros – poucos – que aliam alta qualidade do texto à profunda e comovedora honestidade do relato. Penso, especialmente, em ‘Memórias do Esquecimento’, de Flávio Tavares, ou ‘Uma tempestade como a sua memória’(ambos publicados pela editora Record), em que Martha Vianna traça um delicado e certeiro perfil biográfico de Maria do Carmo Britto, a primeira mulher a ocupar um posto de mando numa organização da resistência armada (a mesma, aliás, à qual pertenceu Dilma Rousseff). 

Há outros em que a indiscutível qualidade do texto mascara o pouco respeito pelo que efetivamente ocorreu, e o afã de protagonismo de seus autores, que se arvoram de façanhas que jamais realizaram, distorce e enfraquece o relato. Há também aqueles nos quais a fidelidade aos fatos não é correspondida pela qualidade do texto, e que por isso mesmo se tornaram desinteressantes. Enfim, há de tudo – mas em poucos livros.

É nesse cenário que surge ‘K’, o romance-testemunho de Bernardo Kucinski, lançado pela Expressão Popular. E se logo de saída a própria estrutura proposta para a narrativa surpreende e impacta, é aos poucos, conforme desfia o longo e dolorido rosário da memória, que ‘K’ alça vôo e ganha força e espaço. 

Na abertura, Kucinski esclarece que ‘tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu’. A partir daí, o autor dá voz à memória, e conta o que conta seguindo os passos erráticos das lembranças, que nunca surgem – como, aliás, na vida real – em ordem rigorosamente cronológica, e muito menos com precisão absoluta. 

A narrativa lança mão de vários recursos literários, a começar por concentrar num personagem determinado – o ‘K’ do título – vários outros, inclusive o próprio autor. A busca desesperada primeiro, furiosa depois, serena mais tarde, porém perene, absolutamente perene, de um pai pela filha seqüestrada e desaparecida pelo terrorismo de Estado que imperou no Brasil durante muito mais tempo, e de maneira muito mais profunda do que se acredita (e se quer fazer acreditar) nos conduz, nos torna acompanhantes e testemunhos dos andares e desandares de ‘K’. E é essa angustiada – e inútil – saga que surge dos lampejos de memória que aparecem desordenados, na tentativa de conseguir enfim entender o que aconteceu, como aconteceu, quando aconteceu. E, ao mesmo tempo, abre portas e brechas para que saltem à luz personagens daquele tempo, deste nosso tempo, com seu inventário de dores e amputações, com suas cicatrizes na alma. 

Ana Rosa Kucinski e seu marido, Wilson Silva, militantes da ALN, foram seqüestrados e desaparecidos numa noite de abril de 1974. Sumiram no ar sem deixar rastros. Ao narrar como o pai de Ana Rosa começa a buscar a filha, Bernardo Kucinski constrói um antes e um depois dessa história trágica. O antes é o antes, é a presença de sua irmã Ana Rosa. E o depois? Bem, o depois é a perversa, a dramática comprovação de que é justamente a presença dessa ausência que se tornou e se tornará permanente, irremediavelmente permanente. Ana Rosa jamais apareceu. A ausência de Ana Rosa jamais deixa de estar presente.

‘K’ é uma narrativa de vertigem, escrita de forma pungente e avassaladora. Mais que um grito de dor e revolta, mais que um uivo inconformado, é um lento, sossegado, estonteante lamento. O livro fala de uma falta, fala da carência dessa vida ceifada, seqüestrada, sumida. E é essa falta que se estende ao leitor, ao passado, à memória. Um lamento perene, porque não há nem haverá final para esse vazio.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

kilombo XXI DIA 20 DE NOVEMBRO EM DIADEMA SP AS 17:00






KILOMBO É UM LUGAR ONDE ESTÃO TODOS OS LUGARES DO UNIVERSO, É UM LUGAR ONDE NÃO EXISTE PORTAS OU JANELAS, UM LUGAR DE TODOS OS TIPOS DE GENTE, UM LUGAR ONDE A LIBERDADE NO SEU SENTIDO MAIS PLENO FEZ MORADA,ONDE O TEMPO É O SENHOR DE TODAS AS COISAS ,É NOSSO LUGAR.
KILOMBO XXI, DIA 20 DE NOVEMBRO NA PRAÇA DA MOÇA EM DIADEMA SP AS 17 :H00

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

kilombo XXI



Ao toque do tambor, encantada pela sinergia dos orixás, a diáspora africana ainda hoje sustenta nossos fundamentos neste mundo sempre novo. Demarca nossas referências através dos ensinamentos dos quilombolas de Zumbi, mas também de Ganga Zumba, Dandara, Manoel Congo de Solano Trindade e outros homens e mulheres afrodescendentes. Tão fortes, tão modernos, tão importantes, que suas ideias e ações povoam ainda nosso imaginário e nossa realidade.  Trafegando por essas imensas infovias, estradas carroçáveis do mundo atual, Zumbi prossegue em seu levante, fazendo circular a possibilidade de trocas constantes, universalizando a natureza multicultural de nossa matriz africana, impondo-se no século XXI como uma forma agregadora capaz de sobreviver ao tempo. E, para além de impregnar o cenário cultural atual, capaz de dar continuidade à incrível saga de Palmares, distribuindo, lá adiante, numa espiral infinda de fé, generosidade, transformação e liberdade para todos, sempre. Axé, Zumbi.

KILOMBO XXI
ALDEIA GRANDE
MARKO ANDRADE