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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CIDADE NA VIAGEM DO OLHAR

por  Almandrade         

As cidades são tristes quando uma curiosidade, uma presença, ou um lugar não aquece a solidão de quem vive a abstração da vida cotidiana. Nada tem sentido. A falta sempre remete a uma espécie de deserto que desorienta o viajante solitário de seu próprio espaço. – Será que as cidades deveriam ser habitadas por imagens que desejamos e por imagens poéticas? “Mas o desejo, a poesia, o riso fazem necessariamente a vida deslizar no sentido contrário, indo do conhecido ao desconhecido”. (Bataille) – Enfrentar o desconhecido é uma tarefa difícil para o homem, principalmente quando ele vive em cidades hostis ao mundo do conhecimento.

A publicidade faz a imagem da cidade, como se a natureza fosse uma imitação de uma outra natureza. A arquitetura não é mais arquitetura, é imagem de out-door. A festa faz o paraíso urbano e uma música medíocre anuncia o Carnaval, esta intervenção autoritária que desapropria a vida da cidade, para aqueles que não têm o direito de opinar contra a festa.

A cidade é a multidão que troca de imagem segundo a moda. Mas tem a imagem que permanece na memória, como objeto da paixão para o apaixonado. Pensei em Walter Benjamin e o Diário de Moscou: o olhar apaixonado de um filósofo sobre uma cidade: “Naquela manhã sentia-me com uma energia e por isso consegui falar de maneira sucinta e calma sobre minha permanência em Moscou e sobre suas perspectivas imensamente reduzidas”. Uma relação de paixão compartilhada com o conhecimento das imagens percebidas de uma cidade.

Da janela, contemplei a rua como um voyeur de cidade. O trânsito, a publicidade, a multidão, o centro histórico. Os monumentos e a arquitetura eram objetos para as câmeras fotográficas de turistas, como cenários sem data. Sem a imaginação o passado é a imagem engraçada, um efeito especial do cotidiano, onde tudo é repetitivo. A história, neste caso, não passa de uma mercadoria para um olhar carente de um lazer cultural. “A era faustuosa da imagem e dos astros e das estrelas está reduzida a alguns efeitos de ciclone e terremotos artificiais, de falsas arquiteturas e de truncagens infantis com que as multidões fingem deixar-se empolgar para não sofrer uma decepção amarga demais” (Baudrillard).

Por outro lado, a singularidade de um espaço, de um monumento ou de uma arquitetura fascina o viajante. É como as imagens poéticas que provocam o desejo de olhar e de viver um estado de deslumbramento. As imagens não são totalmente transparentes que se revelam a qualquer olhar sem reflexão: elas provocam a imaginação e exigem um olhar atento, com um repertório de referências. Isto é, uma sensibilidade capaz de perceber nas imagens suas histórias e suas verdades, mesmo que seja uma sensibilidade marcada pela paixão de uma imagem.

Almandrade

Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia

ARTE: CONFLITOS DO OLHAR


Ao começar esse artigo sobre Antonio Luis Moraes Andrade (Almandrade), um dos grandes artistas contemporâneos da Bahia desse fim/início de século(s), tenho por força que falar do sonho, sem que esse sonho seja uma negação da realidade e sim uma extensão da vida, transformando a utopia do cotidiano na real necessidade da existência. O sonho, não como mais uma das dimensões do humano, mas como o único caminho de possibilidades múltiplas para as suas realizações. Almandrade surge nos anos 70: em 72 ganha menção honrosa em salão universitário. Durante a década de 80, participa de três bienais em São Paulo (XII, XIII, XVI) e vai firmando-se como poeta, artista plástico, arquiteto e, principalmente, um pensador. Sua arte desenvolve-se a partir da idéia do conflito entre o discurso e o objeto artístico. Insere-se numa geração que vivencia uma época em que o pensamento e as manifestações lúdicas primavam pelo experimentalismo, na busca de novas formas de expressão e do dizer, em meio a conflitos sociais que, com o advento do AI-5 em 1968, ocasionam o fechamento da Bienal de Artes Plásticas da Bahia, encerrando o sonho de Salvador ser a capital nacional das Artes Visuais, deixando o Museu de Arte Moderna da Bahia, criado por Lina Bo Bardi, estagnado por quase uma década. Almandrade vem conquistando o seu merecido espaço, construindo uma linguagem de silêncio, pesquisa e rigor na releitura do signo, que em 1980 explode em maturidade, quando o Museu de Arte Moderna da Bahia começa, realmente, a funcionar, sob a administração de Chico Liberato, como um museu vivo e atuante, e apresenta a primeira exposição de arte contemporânea da Bahia: O Sacrifício do Sentido, onde através de desenhos, objetos escultóricos e textos, nos mostra uma proposta que tenta abolir o discurso do fazer artístico possibilitando que o objeto, sua imagem e o óbvio conflito, que vem de sua observação/elucidação, tornem-se o próprio discurso. Não vejo como fixas as formas expostas pelo artista, apesar de sua pesquisa e do modo como utiliza o seu arsenal técnico, nos iludirem com a fácil observação das formas exatas e estáticas, pois é dessa aparência que se inicia a desconstrução do significante, tornando-o mutante e criando um signo que reflete a curiosidade acerca das expressões do sonho, que sem depender apenas do humano recria-se na utilização de outros materiais. A obra de Almandrade reflete sua atitude de artista consciente e sincero, compromissado com o futuro. Zeca Magalhães ------------------------------------------------ Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade) Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; "Em Busca da Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional; Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista, I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano; II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974. Realizou cerca de treinta exposições individuais em Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo entre 1975 e 2011. É um dos principais nomes da poesia visual no Brasil.