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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

poéticas fulinaímicas



a traição das metáforas



não me chamo federika bezerra, nem sou
amante de rosa, noiva sim, mas sem data marcada
para casamento,
e aliança de carne ardendo na coxa esquerda.
tudo mais já foi dito sobre mim na quarta-feira de
cinzas é fato. eu dei o tiro de misericórdia no
peito agonizante do papa no palácio
do catete.

ainda que seja quando aqui e mais além que
seja mar
macabea par aquém não sabe, escava a sua
própria cova, e cava com raiva canina o
buraco negro urubu



Artur Gomes
In Brazilírica Pereira: A Traição das Metáforas
para Hygia Calmon Ferreira onde quer que esteja
www.alpharrabio.com.br






Lunar





A cara da lua

está partida ao meio,
feito um queijo ruído;
meu coração também
vive partido
- à míngua:

de amar como quem se afoga,
de amar como quem se vinga.




Salgado Maranhão 

do livro: A Cor da Palavra 
prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011



Celso Borges -
 fotografado por Artur gomes na Feira do Livro de são Luís - Maranhão



O Incêndio da Casa dos Lordes e dos Comuns



do outro lado do mundo

beira de um rio londrino
o pintor Joseph Mallord William Turnertoca fogo no fim do céu

no dia seguinte a Tate Gallery anuncia o leilão do pôr-do-sol


Celso Borges

No livro BELLE EPOQUE
cbpoema@uol.com.br





cidade acesa


meu coração inquieto
quer zanzar
pela madrugada adentro
dentro de você
ele quer te abrasar
quer mel e beleza
quer te namorar
de pau duro
e palavras acesas

Aroldo Pereira
In parangolivro
www.7letras.com.br









Tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim
nada.
Noite alta madrugada
na cidade que me guarda.
E esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim.
Toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim.

Torquato Neto





por onde passeio minha língua 2




tenho aqui
 a língua
 no meu céu da boca
o
coração em cantos
entre uma vértebra e outra
e 
a flor de lótus
no jardim das quantas
tua fome tanta
me mordendo as coxas

entre esperma e sangue
onde colho os lírios
entre um beijo e dor
não comi teu fruto
do desejo ainda
e esse gosto tenho
entre língua e dentes
pois sonhei teu corpo
numa mesa farta
onde bebi nas noites
este teu leite quente


Artur Gomes






quinta-feira, 21 de novembro de 2013

retalhos imortais do SerAfim




quando caí da rede
vi que eu existia mesmo
minha mãe apareceu no umbral da porta
logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou
ele queria terminar de foder com ela, e
parece que comigo também
os dois, silenciosamente, desapareceram na sombra
vi que eu não existia mesmo
quando caí da rede.


Reynaldo Bessa
Do Livro Outros Barulhos
Prêmio Jabuti – 2009






chacina never stops

troia destruída, restam-nos
as ruínas de Bagdá, chuva de mísseis,
capacetes made in united states
of américa, mãos decepadas e olhares
que ainda miram lugar nenhum, talvez
a névoa sob um céu de escombros,
picotada por rajadas de fuzis fabricados
numa pacata cidadezinha do texas,
moloch esculpido na retina intacta, dervixe
do terror com os olhos vazados, crucifixos
radiativos lançados sobre o cabul
por um helicóptero ianque, pearl jam,
iron maden e nirvana a todo volume
no headphone do soldado imberbe, casas
incineradas, embaixadas fumegando,
sonhos da noite passada retalhados
antes que a luz do sol pudesse
iluminar o caminho de volta, o retorno
a uma ítaca estampada nas páginas
de um gibi amarelado, ou de um jornal
que embrulha o peixe na feira, ante
o espanto da velhinha aposentada
que sempre reclama da alta dos preços

Ademir Assunção
Do livro A Voz do Ventríloquo
Prêmio Jabuti – 2013




Predicado do Sujeito

tem que haver uma mudança
na gramática,
uma mudança substancial,
que não é direito
um verbo irregular
passar a ser sujeito no plural.
deve haver um jeito
de romper os elos anormais
entre o agente da passiva
e as conjunções causais.
deve haver uma conjugação geral
de todo o pessoal interessado
na situação
da posição dos verbos na oração.
que não é direito
um verbo no passado ser sujeito.
não duvido até que possa haver
uma manifestação total
dos verbos regulares,
visando a uma transformação gramatical
no futuro do presente tempo estado,
que não é normal
um sujeito só com tantos predicados.

Salgado Maranhão
Do livro A Cor da Palavra
Prêmio da  Academia Brasileira de Letras – 2011

Aline de Oliveira na Oficina de Poesia e 
Produção de Vídeo em Sacramento - Manhuaçu-MG



antropofágica 2

na coluna vertebral dos teus martírios
meus poemas instalam seus mistérios
tudo silêncio
tudo farra
tudo festa
ela tem no umbigo um formigueiro
leoa presa na jaula
seu tempo é todo  aulas
jung, freud, deleuze
análise quântica dos nervos
semântica física dos ossos
sob o vestido branco de rendas
penso teus dedos de sedas
tocando o bico dos seios
quando tens a carne exposta
e as frutas da santa ceia
coloco na mesa posta

artur gomes


Fernanda Dias na Oficina de Poesia e 
Produção de Vídeo em Pdera Dourada -MG


Tropicalirismo


girasóis
 pousando
- NU – teu corpo festa
 beija-flor seresta
 poesia fosse
esse sol que emana
do teu fogo farto
 lambuzando a uva
de saliva doce
Artur Gomes